“E eu acho tão lindo quando ele se permite parar por algum tempo só porque eu achei a posição mais confortável no seu ombro.”

Eu vou ter que te matar dentro de mim, amor. Sinto tanto te dizer isso, a plenos pulmões, lágrima insistindo em pular do olho, coração dilacerado no peito batendo incessantemente, mas é o mais certo a se fazer. Porque a porra do destino resolveu te colocar no meu caminho e você o tornou mais tortuoso do que já era. Porque a minha pele estremece quando você a toca de leve e isso acaba lentamente com a minha vida. Porque o chão tá gelado demais para eu ficar deitada nele chorando por tua causa. Porque mal respirar eu consigo. Tu tomou a puta que é essa atmosfera pra ti. E me deixou aqui enquanto eu me rebatia e chorava e implorava que tu não fosse embora e eu ficasse sozinha. Mas aí eu mesma decidi que era melhor ficar sozinha. Tu é difícil, porra. Tu é muito difícil. Tu sente a porra de um troço bizarro por mim que ninguém nunca consegue entender e depois nega e depois me beija com vontade sugando tudo pra ti. E aí eu fico aqui com a lembrança daquele beijo. Eu já havia sentido aquilo antes, meu amigo. A minha língua já conhecia a dança da tua. Me diz, cacete, como isso é possível? Tu é um filho da puta que não diz nunca o que sente. E eu sou a idiota que te espera confessar o que é, e me deixar livre de uma vez por todas; ou me fazer tua. Mas tu não tem aquele H de homem, sabia? Tu não tem não. Tu é um pirralho disfarçado de rapaz gostoso que passa horas na academia pra dizer que é macho. E, sei lá, me dá tanta raiva que precise de umas putas pra te fazer pensar que és homem… seria tão mais fácil, sabe, amor, tu colocar os pontos nos i’s. Porque tu sabes que os pontos estão faltando, existem só os de interrogação e eu cansei de tanta pergunta, de tanta dúvida, de tanta vida incerta jogada no lixo. É que às vezes o mistério, o subentendido, aquele olhar furtivo… tudo isso cansa de uma maneira que tu não tens ideia. E aí eu acabo precisando do fortinho do teu peito pra descansar minha cabeça barulhenta. Mas que tu permaneça calado e que esse coração teimoso aí não bata tão forte pra não me iludir e fazer pensar que te encontras pensando o que não deve a meu respeito. E agora o coração já não mais me importa. Não aparentemente, amor, é que eu preciso tirar um tempo pra pensar mais em mim… aquela história da garotinha boazinha que cansa de ser assim e resolve se preocupar mais consigo. Eu vou fazer isso. Não se preocupe, vai existir sempre uma parte sua aqui dentro; a que insiste em viver. Não farei nada para que ela morra, vai permanecer ali até que… até que… o sol não brilhe mais. E toda essa porra de clichê. Quer saber? Eu espero que tu pense em mim enquanto vive noites calorosas e perversas com outras; espero que te lembres de quando eu acariciava tua bochecha bem de leve para que tu se acalmasse; espero mesmo que grite meu nome enquanto come uma qualquer. Eu espero de verdade, com todo o meu coração, que o vazio na tua alma se amplifique e você me ligue de madrugada, lágrima insistindo em pular do olho, coração dilacerado no peito, respiração cortada enquanto me pede desculpas e diz que nunca mais vai embora. Que precisa de mim outra vez. Mas enquanto isso… vá se foder, seu filho da puta. (Anna Júlia)


“— Por que quer se casar comigo? Além de satisfazer um desejo burguês de um ideal imposto pela sociedade desde a tenra idade para promover uma ideologia capitalista?
— Ouça. Quero me casar com você porque é a primeira pessoa que quero ver ao acordar pela manhã e a única que quero dar um beijo de boa noite. Porque a primeira vez que vi essas mãos, não pude imaginar não poder segurá-las. Mas principalmente, porque quando se ama alguém como eu te amo casar é a única coisa a fazer.”
— Trecho do Filme “Três Vezes Amor” 

toleravel asked: tu escreves muito bem, sério! +follow

Awn, linda, muito muito muito obrigada <3 

… e VOCÊ deveria escrever mais, de verdade! *-*


desarmonia asked: E eu pensei que tu tivesses tornado um daqueles algodões que evaporam...

Nunca, minha linda, nunca… 

(você ainda lembra!!!!!!!!)


— O que você sentiu quando a beijou? — perguntou a menina após um longo gole da cerveja quente que pouco a divertia; estava precisando urgentemente de algo mais forte, uma tequila que a fizesse esquecer aquele cujos olhos queimavam deliberadamente cada centímetro de seu corpo. Porra, meu amor, para com isso, era o que queria dizer. Mal podia chamá-lo de amor, quanto menos de seu. 

Ele franziu a testa. De quem a sua amiga estava falando? Tinha Letícia, Ana, Jéssica, Carla… tantas outras. 

— Quando beijei quem, Juju?

— Camila. Aquela ruiva de farmácia insuportável — riu fraco e deitou-se na cama observando as estrelas fosforescentes que colara no teto de seu quarto quando tinha apenas seis anos.

— Por que tu não gostavas dela? — pela enésima vez a mesma pergunta, pensou Anna Júlia. Ele nunca entenderia. O que poderia fazer? Estava caidinha de amor pelo seu melhor amigo e ele tinha outras na cabeça e no coração. Ou só na cabeça. Nas duas, concluiu internamente.

— Instinto feminino. Guria fresca, sei lá, arranjava defeito em tudo naquele acampamento idiota. Antipática até o último fio de cabelo…

“… menos contigo.”

— Ela era ótima comigo — sorriu de lado ao perceber que Júlia coçava a nuca fortemente. Ela fazia isso toda vez que algo a incomodava. E ele gostava.

— Porque ela não te conhecia. E tu ainda se apaixonou por ela. 

“Ou pelo menos foi o que você contou para todos os nossos amigos…”

— Então você é chata comigo desse jeito porque me conhece? — Leo deu a risada que fazia o coração de Júlia se esquentar rapidinho e jogou uma almofada na menina.

— Não, Leonardo — segurou a almofada antes que batesse no seu rosto e mostrou o dedo médio para o menino —, o que eu quero dizer é que ela era fofa e derivados com você porque tentava te agradar. Odeio menina oferecida que é a meiguice personificada para todos os homens por aí… mas quando chega para outra menina, é uma cobra.

— Falando assim tu até parece ser meio… sapata, sabe, Anna Júlia?

— Vá se foder.

Leonardo gargalhou. 

— Qual é, pode assumir que tu tens um pouquinho de ciúmes dela… — agora ele se aproximava lentamente da cama e se deitava de lado à de cabelos escuros, enquanto a envolvia com um de seus braços e a punha com a cabeça em seu peito. Confortável, pensou.

— Ciúmes para quê? Sou eu quem estou no seu coração o tempo todo e ninguém pode me substituir — sorriu contra o peito forte do amigo ao sentir as carícias do mesmo no seu braço.

Odiava o quanto ela tinha razão. Às vezes morria de raiva do mundo por preferir ficar se embriagando no quarto da sua melhor amiga numa sexta-feira à noite em que poderia estar se embriagando com outras gurias que lhe ofereceriam cama e tudo o que ele pedisse. Mas… não. Aquele abraço completava o buraco que aparecia depois de cada noitada com outras mais libertinas de pernas fáceis. Estava virando um maricas. Foda-se isso.

— Sempre, minha Juju… 

Júlia entrelaçou seus dedos com os de Leo e eles começaram uma pequena luta de polegares, ao mesmo tempo em que ela se lembrava da pergunta que havia feito a ele. Era arriscado perguntar aquilo. Vai que ele percebe algo fora do normal? Mas ela precisava daquela resposta. E não havia oportunidade melhor.

— Você gostou do beijo dela? 

— Era bom… por quê?

A verdade é que Leonardo não entendia a curiosidade repentina de Júlia sobre aquela menina. Qual é, ele tinha dito que se apaixonou pela Camila, mas era coisa de momento, pensava até que, por conhecê-lo tão bem, Júlia já tivesse ciência desse fato. Amiga burrinha.

— Não estou perguntando exatamente isso… quero saber se você se sentiu bem beijando ela. Se não foi um beijo só de boca, se foi teu corpo todo se conectando a ela… entendes?

Júlia ergueu o corpo e se sentou de pernas cruzadas olhando atentamente para as reações do amigo. De início ele a olhou por uma fração de segundos, provocando um rubor no rosto dela, depois depositou sua atenção nas estrelas disformes. Agradeceu internamente por a luz estar desligada; estava confuso. Por que diabos Júlia lhe perguntara aquelas coisas? Não faziam sentido. Leonardo permaneceu em silêncio.

— Como se você já conhecesse aquela boca, aquela língua, aquela pegada, aquele tudo. Como se tudo entre vocês estivesse moldado, sabe? E não houvesse encaixe melhor em lugar algum.

Júlia disse a última frase baixinho, fingia prestar atenção em suas unhas e um clima estranho pairava sobre o quarto. Estava se expondo demais. Havia um tipo de telepatia bizarra entre os dois. Era óbvio que Leo entenderia. Mais silêncio.

— E enquanto a beijava você literalmente viajou. Estava ali, estava sentindo toda aquela… magia — fez aspas com os dedos — do momento, mas ao mesmo tempo tinha algo a mais, era uma sintonia, quase uma aberração — agora ela sorria, lembrava-se de algo  Tu se sentiu o ser mais completo do mundo e mais confortável, mas depois teve um medo desgraçado de não sentir aquilo com mais ninguém; então teve um ataque de pânico com tudo. E por isso hoje em dia foge dela e se refugia com essas tuas vagabundas…

Anna Júlia mordeu o lábio e olhou para as unhas vinho descascadas.

Ela se recordava fielmente do dia em que eles acidentalmente haviam se beijado. Uma doideira. Era seu melhor amigo, afinal. Não havia por que ter sentido tudo aquilo. Estavam bêbados e foi um momento de fraqueza, em que o magnetismo entre os dois — não conseguiam ficar perto um do outro sem que uma parte do corpo não se tocasse — pareceu maior do que a amizade de anos. Era bobagem ter pensado que aquilo tinha tido significado algum para ele. Ele era o Leonardo.

Júlia se levantou da cama e pegou a garrafa de tequila do mini-congelador, depois os ingredientes necessários para a dose. Virou duas de vez e agradeceu a todos as plantas do mundo por aquela bebida; aquilo poderia distrai-la da confissão indireta que fizera para Leonardo.

Leonardo havia entendido. Abriu um sorriso de orelha a orelha, sentindo uma corrente elétrica descendo do cabelo até os dedos dos pés. Confortável até demais, pensou.

— Nervosa, Juju?! — riu Leo, puxando a amiga pelos pulsos e depois colando seus corpos, prescrutando cada pequena sarda que Júlia tinha nas bochechas, os lábios vermelhos entreabertos e a respiração falha. O coração dela estava acelerado. Poderia ser efeito do álcool… ou não.

Ela fez que “não” com a cabeça. 

— Você ainda não respondeu a minha pergunta, Leonardo… 

“… porra, Júlia, onde tu arranjou forças para formar sílabas?”

Ele era tão lindo. Era mais lindo ainda quando olhava para ela. E logo daquela maneira. Aquele menino estava querendo fazê-la perder o pouco de consciência que ainda tinha. 

— Puta que pariu, Júlia. Não. Não senti nada disso com ela. Tu já sentiu isso com alguém?

Aproximou o seu rosto do da menina, roçando seus narizes e sentido as respirações estupidamente falhas se misturando. Queriam aquilo. Ansiavam com todo o corpo. Não só o corpo. Mas naquele minuto, não sabiam mais de quem eram aqueles batimentos cardíacos desesperados formando uma sintonia totalmente descompassada. Merda.

Agora ele sentia o coração a mil por hora. Ridículo, pensou. Que porra era aquela que sentia quando estava na companhia de Anna Júlia? Era só a Juju, a sua Juju, a Juju durona que não sentia nada por ninguém, que ria de suas atrapalhadas com as garotas, que odiava as suas namoradas, que sempre estivera ali por ele. Era só a sua amiga.

Aqueles lábios rosados, no entanto, estavam tão convidativos…

— Não, Leozinho…

“… só contigo”.

— Eu também não. 

Disse por fim antes de selar os lábios aos de Júlia.

(Anna Júlia)


“Quem sabe um dia você queira contar a nossa história rimada num poema que faça alguém chorar. Quem sabe um dia, você consiga olhar no fundo dos meus olhos e perceber que aquela menina que morria de amores por você já cresceu. Quem sabe um dia nós nos encontremos por aí, cada um com seu tão sonhado casalzinho de filhos, e consigamos nos cumprimentar cordialmente, dentro dos padrões legais de educação. Quem sabe um dia as cartas e confissões de outrora nos façam gargalhar. Quem sabe um dia, ao ouvir o velho Bon Jovi, nós possamos olhar para trás sem sentir o peso das mágoas. Quem sabe um dia o mês de junho nos passe desapercebido, sem trazer à tona as memórias já naufragadas. Quem sabe um dia possamos respirar o mesmo ar sem que isto nos cause constrangimentos. Quem sabe um dia eu consiga escrever sobre você sem que os nós me venham à garganta. Quem sabe um dia eu possa suportar o peso de carregar dois corações pulsando ensandencidos dentro de mim. Quem sabe um dia, um triste, mas necessário dia, o brilho do teu sorriso se apague para mim. Quem sabe um dia os ventos de inverno não nos causem frio. Quem sabe um dia eu consiga desacorrentar-me da tua alma sem que as lágrimas brotem. Quem sabe um dia eu supere esta história imatura e mal acabada. Quem sabe um dia.
Mas não agora.
Ainda é cedo demais.”
Descuidada.

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Hidropônica - Forfun


unkex-deactivated20120215 asked: É, pequena...

Lindo.